O que deveria ser um espaço de debates sobre os desafios contemporâneos do Direito tem se transformado, segundo críticos, em uma vitrine da promiscuidade institucional brasileira. É assim que a Transparência Internacional – Brasil descreve o Fórum de Lisboa, evento anual organizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), ligado ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.
Mais conhecido por seu apelido informal, “Gilmarpalooza”, o evento se consolidou como um dos mais aguardados encontros da elite político-jurídico-empresarial brasileira — e também um dos mais opacos.
Críticas severas da Transparência Internacional
Nesta segunda-feira (7), a Transparência Internacional foi contundente: “O Fórum de Lisboa – ou ‘Gilmarpalooza’ – é hoje o maior evento de lobby judicial do planeta.”
A ONG denunciou a falta de transparência quanto aos patrocínios privados, uso de recursos públicos e potenciais conflitos de interesse. Segundo a entidade, o Fórum não representa um Brasil moderno ou cosmopolita, mas sim um país ainda atolado no clientelismo e patrimonialismo, vícios históricos das estruturas de poder nacionais.
“Debater os impactos da inteligência artificial não traz a comunidade jurídica brasileira ao século XXI”, afirma a nota publicada no X (antigo Twitter). “Romper com o patrimonialismo profundamente arraigado seria a verdadeira e tão necessária modernização deste estamento.”
https://x.com/TI_InterBr/status/1942175829158420616
Em resposta às críticas, Gilmar Mendes classificou o Fórum como um “ponto fundamental de diálogo entre o Brasil e a Europa”, destacando temas como democracia digital e inteligência artificial. No entanto, a tentativa de justificar o encontro esbarra no que mais preocupa os críticos: a falta de controle público sobre quem financia, participa e se beneficia dessas conversas.
“Nós conversamos com juízes em todos os lugares no Brasil, os advogados, os empresários. O Brasil tem uma tradição de muita receptividade”, disse Gilmar na sexta-feira (4). “E ninguém vem aqui para fazer coisa errada, vocês sabem disso.”
Mas será suficiente essa declaração para afastar as sombras de conivência e conluio?
Um evento que escancara os vícios da República
Enquanto ministros do STF, políticos influentes, empresários bilionários e advogados de grandes bancas trocam ideias em um luxuoso hotel europeu, a sociedade brasileira segue alijada dos debates reais sobre o funcionamento da Justiça e da política nacional. O evento, longe do solo brasileiro e ainda mais distante do cidadão comum, simboliza um sistema que dialoga consigo mesmo, protegido pela retórica da modernização e da democracia digital.
A ausência de critérios públicos para o financiamento do evento, aliada à presença maciça de atores interessados em decisões judiciais de impacto bilionário, levanta questões sérias sobre ética institucional. A alegada “abertura à mídia” não substitui os mecanismos de controle, transparência e accountability esperados de autoridades da mais alta Corte do país.
O custo simbólico da promiscuidade institucional
O “Gilmarpalooza” virou uma espécie de Davos da Justiça brasileira — mas sem as mesmas regras de governança. E isso cobra um preço. Em tempos de desconfiança nas instituições e de erosão democrática global, encontros como o Fórum de Lisboa alimentam suspeitas legítimas sobre a captura de interesses públicos por redes privadas de poder.
Se o Brasil quiser mesmo ingressar na “Era Inteligente”, como prega o discurso oficial do evento, talvez devesse começar enfrentando seus vícios mais arcaicos: a opacidade, o clientelismo e o cruzamento indevido entre poder, influência e interesse.
